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Fenômeno raro que causou tragédia no Nordeste pode voltar a ocorrer.

Nos últimos 150 anos, um El Niño de intensidade excepcional — classificado como “super” — ocorreu apenas quatro vezes: em 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16

A confiança nos modelos é excepcionalmente alta — a probabilidade de permanência do El Niño oscila entre 97% e 99% em todos os trimestres projetados até o verão de 2027, tornando a ocorrência do fenômeno praticamente certa. Há ainda 63% de chance de que o evento atinja a categoria “muito forte”, com anomalia de temperatura igual ou superior a +2°C entre novembro de 2026 e janeiro de 2027 — o que o colocaria ao lado dos episódios mais intensos desde 1950.

O que preocupa pesquisadores não é apenas a intensidade prevista, mas o intervalo desde o último evento extremo. Caso a projeção se confirme, o intervalo entre um super El Niño e outro será pelo menos cinco anos mais curto do que o padrão histórico — o que pode estar relacionado ao aquecimento global e à intensificação das mudanças climáticas.

No Brasil, o fenômeno não produz os mesmos efeitos em todo o território. A Região Norte tende a enfrentar secas mais intensas, queda no nível dos rios e aumento do risco de queimadas. No Nordeste, a principal ameaça é a escassez hídrica, com reservatórios em baixa e lavouras comprometidas. No Centro-Oeste, o calor e a redução da umidade favorecem incêndios, enquanto parte da região pode manter chuvas dentro da média. No Sudeste, grandes capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Vitória podem sofrer ondas de calor mais intensas, elevando o consumo de energia elétrica.

A Região Sul tende a concentrar o impacto mais direto, com aumento significativo no volume de chuvas, temporais frequentes e risco de enchentes e deslizamentos nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — exatamente as áreas que ainda se recuperam das enchentes históricas de 2024.

Para o professor Claudio de Brito Neri, do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré, os efeitos vão além do clima e atingem o bolso da população. “Isso fica claro quando analisamos períodos anteriores, em que suas consequências foram desde problemas na produção de alimentos até crises no abastecimento de água e enchentes”, disse o especialista. Entre os impactos econômicos esperados estão a alta nos preços dos alimentos, a pressão sobre as tarifas de energia elétrica e a redução da disponibilidade de água em diversas regiões.

A pesquisadora Regina Rodrigues, da UFSC e da rede do INPO, defende que a previsão exige urgência nas medidas de adaptação, enquanto outros especialistas apontam que melhorar a drenagem urbana, fortalecer os sistemas de alerta precoce, ampliar o monitoramento hidrológico e planejar o uso do território são as principais ferramentas disponíveis para reduzir os danos. Impedir o fenômeno não está entre as opções — o que se pode fazer é se preparar para ele.

Os modelos climáticos atuais indicam que 2026 pode ser o quinto. E os números por trás dessa previsão são contundentes: projeções da NOAA divulgadas em maio apontam 96% de probabilidade de que o fenômeno se mantenha ativo entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, com impactos que podem se estender até pelo menos o segundo semestre do próximo ano.

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REPORTAGEM: CHRISTIANO MONTEIRO

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